Coleção Estudos Brasileiros analisa a complexidade do Brasil

E-books gratuitos trazem estudos sobre diferentes aspectos da história e da cultura brasileiras
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Dentro da Série Paralelos 22 – que alinha as várias atividades que o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP propõe para discutir o bicentenário da Independência do Brasil, o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 e os 60 anos de criação do próprio IEB –, nasce a Coleção Estudos Brasileiros, que busca refletir criticamente sobre a realidade brasileira. Segundo o professor Marcos Moraes, coordenador da coleção ao lado da professora Monica Dantas, “é um modo de pensar o Brasil de forma mais complexa, em perspectiva inter-multi-trans e pós-disciplinar”. Moraes ainda destaca a formação do comitê editorial, que inclui professores estrangeiros, de instituições norte-americanas e inglesas, “para lançar um olhar de fora sobre nós mesmos”.

A coleção é inaugurada com o lançamento de cinco títulos, publicados pela Editora Fino Traço, disponíveis gratuitamente em formato de e-book. Elaborados no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileiras do IEB, os livros analisam questões sociais, políticas, econômicas, tecnológicas e ambientais, a partir do olhar da antropologia, economia, educação, história e literatura, entre outras áreas do saber. “São livros que, à luz de expressiva fortuna bibliográfica, pressupõem a compreensão, o adensamento e o aprofundamento sobre o Brasil”, afirma Moraes, explicando que, quanto mais abrangente e profundo o olhar, maior a compreensão sobre o objeto de pesquisa. “Os cinco títulos flagram imaginários de nação e projetos identitários que produzem expectativas e representações, assim como consubstanciam territórios e geografias”, definem coordenadores no texto de apresentação da coleção.

Da Corte ao Confronto: Capítulos de História do Brasil Oitocentista – Foto: Reprodução

O primeiro título, Da Corte ao Confronto: Capítulos de História do Brasil Oitocentista, organizado pela professora Monica Dantas, vai para além da perspectiva histórica comum. Como aponta a introdução do livro, os autores partem da leitura de fontes documentais diversas, desde atas do Conselho de Estado, passando por processos criminais, leis e decretos, até artigos e editorais publicados na imprensa, para contar histórias, por exemplo, de trabalhadores que enfrentaram o governo da capitania de Pernambuco de armas nas mãos e de artesãos do Recife que, por meio de sua resistência aos mandos e desmandos das autoridades, buscaram garantir a manutenção de sua organização. “Uma história múltipla, de enfrentamentos e negociações, construída por sujeitos os mais diversos, do imperador aos galés, passando por ministros, senadores, deputados, marqueses e barões, maçons, fazendeiros, soldados, guardas nacionais, artesãos, imigrantes, posseiros e africanos livres.”

Da Discussão é Que Nasce a Luz: Canção, Teatro e Sociedade – Foto: Reprodução

Da Discussão é Que Nasce a Luz: Canção, Teatro e Sociedade, do professor Walter Garcia, reúne 15 textos redigidos entre 2007 e 2019, revisados, acerca da crítica da canção popular-comercial brasileira a partir do estudo da MPB e do rap, e de suas relações com o teatro. Segundo o autor, a crítica tem como chave, nesse livro, a noção de forma. “Essa diz respeito tanto à análise dos materiais sonoros e dos modos como eles se organizam, constituindo uma estrutura que é, afinal, a obra fonográfica, quanto à interpretação dos sentidos de tal estrutura à luz do processo histórico brasileiro”, escreve. Sob uma perspectiva interdisciplinar, a abordagem mobiliza instrumentos da teoria crítica, da musicologia, dos estudos literários, da comunicação social, da historiografia e da sociologia da cultura, tendo como recorte temporal as produções recentes.

Espaço Comunicativo e Fratura Social – Foto: Reprodução

Uma reflexão sobre redes digitais e sobre o sistema midiático tradicional está em Espaço Comunicativo e Fratura Social, dos professores Jaime Oliva e Luciana Salazar Salgado. Os textos foram escritos em momentos diferentes, com versões iniciais e outras mais profundas sobre a comunicação hoje. “Os temas que os percorrem se referem à constituição e às operações do espaço comunicativo nas sociedades contemporâneas, com foco no Brasil”, afirmam os autores na introdução. Além disso, apontam como elos o geógrafo Milton Santos – cujo acervo documental e bibliográfico se encontra-se no IEB –, “um dos pioneiros, nas humanidades brasileiras, na caracterização do atual período e na reflexão profunda sobre a tecnoesfera”, além do sociólogo de origem moçambicana Hermínio Martins e o midiólogo Régis Debray.

Sujeitos e Artefatos: Territórios de uma História Transacional da Educação – Foto: Reprodução

A professora e diretora do IEB Diana Vidal organiza o quarto livro, Sujeitos e Artefatos: Territórios de uma História Transacional da Educação. Segundo ela, não é intenção retraçar as trajetórias da discussão sobre história e educação comparada. “Pretende-se apenas evidenciar que uma história sobre a educação nos séculos 19 e 20, como a que se entabula neste livro, não pode se descurar de problematizar o efeito que a constituição de um território como nacional e da delimitação de suas fronteiras tem produzido na elaboração de narrativas sobre o passado e o presente da escola e da escolarização. Nesse processo, o recurso a uma história transnacional da educação emerge como um lenitivo”, afirma.

Nas Contas do Tempo: Orçamentos e Balanços Municipais na Província de São Paulo 1834-1850 – Foto: Reprodução

O quinto título, Nas Contas do Tempo: Orçamentos e Balanços Municipais na Província de São Paulo 1834-1850, da professora Luciana Suarez Galvão, utiliza tabelas e gráficos que analisam a questão financeira municipal considerando-se as prestações de contas manuscritas.

Além disso, a autora identifica a presença sistemática dos chamados saldos e sobras e das chamadas dívidas ativas na composição da receita orçada. “Sem possuir a facilidade de consulta e sistematização que possuíam as leis orçamentárias publicadas, as prestações de contas constituem um registro mais próximo da realidade financeira das municipalidades, pois são feitos levando-se em consideração os valores efetivamente arrecadados e aqueles igualmente e efetivamente dispendidos em cada exercício financeiro. Todavia, sua disponibilidade varia de município para município, pois muitos registros acabaram se perdendo com o passar dos anos, alguns por falhas no arquivamento, outros por problemas de conservação”, comenta.

Como destaca Moraes, a coleção abre caminho para pensar o Brasil a partir de várias questões e por diversos ângulos. O coordenador adianta que os próximos dois volumes, com previsão de lançamento para maio, vão reunir artigos de todos os professores do IEB, nos quais os leitores vão perceber essa multiplicidade de olhares sobre o Brasil.

Os livros da Coleção Estudos Brasileiros, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, estão disponíveis na íntegra, gratuitamente, no site do IEB. Clique aqui.

Informações: Claudia Costa, Jornal da USP