Evento destaca os vários Modernismos no Brasil

A partir deste mês, especialistas debatem outros marcos iniciais desse movimento, além da Semana de 1922
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O ano é 1922 e o lugar é o Theatro Municipal de São Paulo. Uma semana de três dias, 13, 15 e 17 de fevereiro, recebe apoio do mecenas Paulo Prado e de outros senhores do café paulista. Vibra-se no País pelo Centenário da Independência e um grupo de jovens ilustrados ambiciona tornar as artes nacionais também livres. É a celebrada – mas também vaiada, criticada e relativizada, dependendo do período histórico e do sujeito – Semana de 22.

Graça Aranha, diplomata e escritor, estimado sobretudo pelo romance Canaã (1902), dá respaldo e apadrinha a juventude ávida de modernidade. Profere a conferência inaugural A Emoção Estética na Arte Moderna. No saguão do Municipal, uma seleção de obras plásticas arranca risos e escândalo da elite local ao desafiar os cânones acadêmicos. Dentre os artistas, gente que hoje habita o panteão, como Anita Malfatti – pioneira que, em 1917, havia sido chicoteada pelo conservadorismo de Monteiro Lobato –, Di Cavalcanti, Victor Brecheret e Vicente do Rego Monteiro.

Ícones da Semana de Arte Moderna: Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Manuel Bandeira – Montagem com imagens de Wikimedia Commons

Poesia e prosa de Oswald de Andrade, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho – colaborador da mitológica revista modernista portuguesa Orpheu, que aparece também falando sobre A Pintura e Escultura Modernas no Brasil. Menotti del Picchia dá sua palestra sobre estética modernista, assim como Mário de Andrade atiça os ânimos com sua conferência. Composições de Heitor Villa-Lobos inundam as salas e corredores do teatro ao longo dos três dias e o piano de Guiomar Novaes – um dos poucos agrados que a Semana ofereceria ao público conservador – tilinta Blanchet, Debussy e o próprio Villa-Lobos.

Eis o nascimento retumbante do heroico Modernismo brasileiro.

Não exatamente.

Com o evento 1922: Modernismos em Debate – que começa no dia 29, segunda-feira –, o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, em parceria com a Pinacoteca de São Paulo e o Instituto Moreira Salles (IMS), pretende fazer um exame crítico da famosa Semana, que reajuste seu lugar dentro das propostas de renovação artístico-culturais das primeiras décadas do século 20.

A programação prevê um ciclo de debates on-line e gratuito, que acontece de março a dezembro, e faz parte das ações ligadas ao Projeto USP 22, que envolve institutos, faculdades e museus da Universidade em atividades sobre os marcos do Brasil nos anos de 1822, 1922, 2022 e 2122. O evento está situado também em torno do convênio firmado recentemente entre a USP e o IMS.

Serão dez encontros, um por mês, com a participação de 41 convidados, entre pesquisadores e artistas (confira abaixo a programação completa do evento). A proposta é ampliar o entendimento do que foi o Modernismo brasileiro, através da análise de manifestações que ocorriam para além das divisas de São Paulo, em Estados como Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Para isso, o ciclo pretende reunir pesquisadores oriundos de diferentes Estados, cuja produção sobre o Modernismo é geograficamente menos concentrada e explora as especificidades locais.

A professora Ana Gonçalves Magalhães, diretora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“Ao longo do século 20, a Semana foi sendo consolidada como um marco inicial do Modernismo no Brasil e esses encontros sobre 22 vêm no sentido de mostrar que ela não foi o único. Existiam outros núcleos de Modernismo e de experiência de modernidade no País”, comenta a professora Ana Gonçalves Magalhães, diretora do MAC e uma das organizadoras da programação.

De acordo com a diretora, manifestações modernistas e modernizantes podem ser identificadas antes de 1922, não somente em São Paulo. Ana destaca a  atuação de intelectuais e artistas do Nordeste e do Norte do País e salienta que não se pode perder de vista que Manaus, vivendo o ápice do ciclo da borracha, era uma capital cosmopolita no início do século 20.

A hegemonia da Semana de 22 sobre outros desenvolvimentos modernistas tem a ver com um processo de institucionalização pelo qual o evento do Theatro Municipal passou ao longo das décadas, segundo a diretora. “Um processo de afirmação de hegemonia política, social e econômica de uma elite paulista diante do País”, explica. Um projeto de nação para o Brasil no qual essa elite se associa aos ideais de modernidade.

Discussões contemporâneas

Contextualizar historicamente a Semana de 1922 é o leitmotiv do ciclo. Por isso, as narrativas desenvolvidas nos manifestos, discursos e produções sobre o Modernismo serão revistas a partir de discussões contemporâneas, como os estudos feministas, queer e decoloniais, nos quais o lugar das mulheres artistas e as representações do negro, do indígena e das camadas populares entram em pauta.

“Imagine um artista como Vicente do Rego Monteiro, que temos em nosso acervo e que participou da semana de 22”, sugere Ana. “Ele incorpora o que entende como elementos da cultura marajoara dentro de sua linguagem plástica, mas em um sentido que, obviamente, não se questiona sobre sua condição, como artista pertencente a uma classe social abastada e branca, e o que significou para essas populações indígenas os ataques frequentes sofridos durante o período colonial brasileiro. E ele supostamente resgata uma certa autenticidade dessas culturas através de uma coleção de museu, porque estuda isso a partir das coleções do Museu Nacional do Rio de Janeiro.”

O primeiro encontro do ciclo, no dia 29, trará o tema Histórias da Semana: o Que É Preciso Rever. Participam a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP Aracy Amaral, a professora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), também da USP, Ana Paula Cavalcanti Simioni, a professora da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) Ivana Ferrante Rebello, a curadora Regina Teixeira de Barros e o professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro Frederico Coelho.

Conforme explica Ana, o ciclo é também uma forma de o MAC se preparar para as comemorações de 2022, com os marcos do bicentenário da Independência e os 100 anos da Semana. A diretora adianta que o museu não prevê nenhuma mostra histórica sobre o Modernismo, mas, em vez disso, estuda a organização de um laboratório.

“O Laboratório 22 prevê um programa de envolvimento de especialistas-curadores em várias formas de manifestação artística, de um lado, e, de outro, encontros e workshops com artistas contemporâneos”, comenta. A ideia é que os artistas proponham leituras sobre 22, dentro de suas próprias linguagens.

O ciclo 1922: Modernismos em Debate começa no dia 29 de março, às 18 horas. Os encontros serão mensais, com transmissão ao vivo através do canal do MAC no YouTube e no Facebook do MAC. A Pinacoteca e o Instituto Moreira Salles também vão transmitir o evento. Grátis. Não há necessidade de inscrição. Mais informações estão disponíveis no site do Instituto Moreira Salles (IMS).

Em torno de modernidades

Confira abaixo as datas e temas dos encontros virtuais do ciclo 1922: Modernismos em Debate.

29 de março – Histórias da Semana: o Que É Preciso Rever
26 de abril – Identidade como Problema
31 de maio – Culturas Urbanas
28 de junho – O Popular Como Questão
26 de julho – Outras Centralidades
30 de agosto – Artes Indígenas: Apropriação e Apagamento
27 de setembro – Fotografia e Cinema
25 de outubro – Artes do Cotidiano
29 de novembro – Políticas do Modernismo
13 de dezembro – Futuro e Passado: Legados Para o Patrimônio

Créditos: Luiz Prado, Jornal da USP