IEB-USP exibe a maior exposição sobre Modernismo brasileiro do mundo

A mostra, que reúne centenas de materiais, entre cartas, livros e manuscritos de artistas como Mário e Oswald de Andrade e Anita Malfatti, está em cartaz no Centro Cultural Fiesp
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Exposição Era Uma Vez o Moderno – Foto: Cecília Bastos

Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e tantos outros artistas, além de serem grandes figuras do Modernismo brasileiro, também eram seres humanos. Eles tinham dúvidas, frustrações e chegavam até a brigar entre si. Além de apresentar três décadas de Modernismo brasileiro com conteúdo inédito, a exposição Era Uma Vez o Moderno mostra como esse movimento não se resume à Semana de Arte Moderna de 22 e construiu diversas vozes e iniciativas ao longo das décadas. Os bastidores do movimento modernista são revelados pelos próprios artistas através de mais de 370 materiais, a maior parte do Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB-USP). A exposição, recém-inaugurada, está no Centro Cultural Fiesp até o dia 29 de maio de 2022 e é resultado de uma parceria do IEB como o Serviço Social da Indústria de SP (Sesi-SP).

Era Uma vez o Moderno (1910-1944) é considerada a maior exposição sobre Modernismo brasileiro no mundo. Com apoio da Fiesp e do Sesi foi possível restaurar e expor diários, cartas, manuscritos, fotos e obras dos artistas e intelectuais que fizeram parte de diversas iniciativas em torno da implantação de uma arte moderna no Brasil. O monitor de arte e educação da Fiesp, Ítalo Galiza, conta que o ponto-chave da exposição é que não possui caráter apenas celebrativo da Semana de Arte Moderna de 22, que vai comemorar o seu centenário no ano que vem. “A ideia da exposição é deixar que os próprios artistas contem como foi esse período por eles mesmos. Podemos considerar que os protagonistas dessa exposição são os próprios escritos”, destaca o monitor.

 

Os curadores, o professor e pesquisador do IEB Luiz Armando Bagolin e o historiador Fabrício Reiner procuram desmistificar alguns aspectos na exposição. “A Semana foi uma estratégia muito mais bem-sucedida como propaganda para gerar reações na imprensa do que propriamente um evento que foi representativo do ponto de vista da exposição das obras artísticas. A maior parte que foi apresentada na Semana não tinha proposições modernas”, revela Bagolin. Além disso, diferente do que muitas pessoas acreditam, embora os eventos da Semana tenham acontecido no Teatro Municipal de São Paulo, o Modernismo teve a contribuição de outras vozes de outros Estados. Outro equívoco é pensar que o Modernismo foi um movimento só e coeso nas suas intenções. “Muitas iniciativas se chocaram”, afirma o professor. Um exemplo é a carta escrita por Mário de Andrade para Tarsila do Amaral, em 1929, na qual ele comunicava o rompimento da relação de amizade com o também modernista Oswald de Andrade.

Esses conflitos são expostos nos materiais para que o público possa observar essa dimensão humana dos artistas, segundo os curadores. “Isso permitiu também que nós, curadores, nos afastássemos um pouco, sem nossas opiniões (apesar do recorte) e que deixássemos esses protagonistas falarem por si mesmos, numa abordagem histórica”, explicam os curadores. Ao longo da mostra, observam-se várias camadas informativas. Por meio dos QRCodes que acompanham as obras, o visitante é convidado a ler várias análises dos curadores e curiosidades no site da exposição. São mais de 80 textos e 14 áudios com informações sobre três décadas dessa história. A tecnologia está presente também com hologramas de atores que interpretam alguns artistas modernistas em momentos importantes de suas vidas e também da história do movimento cultural. A atriz que interpreta Anita Malfatti, por exemplo, conta quais eram as expectativas da primeira exposição dela.

A exposição é dividida entre a Semana de Arte Moderna de 1922, antes e depois, e os protagonistas são Anita Malfatti e Mário de Andrade. No entanto, há obras de outros artistas e influências do movimento modernista. Por exemplo, a exposição abre com Emma Voss por “uma questão de justiça histórica”, de acordo com o pesquisador do IEB. Ela é uma artista imigrante, chega da Alemanha em 1910 e é a primeira a abrir uma exposição individual em São Paulo. “Não se sabe nada a respeito dessa exposição, exceto o autorretrato, que já mostra uma construção que contém princípios do Expressionismo alemão, e uma notícia no jornal que elogia a pintura, mas estranha o fato de que quem a pintou foi uma mulher”, aponta o professor sobre como o machismo era presente na época no mundo da arte.

 

Quem também sofre muitas críticas é Anita Malfatti, pioneira com a pintura rigorosamente dentro dos princípios das vanguardas artísticas do início do século 20. “É a nossa primeira artista modernista”, destacam os curadores. Eles descrevem que a primeira formação dela já é no Modernismo e no que tem de mais atual acontecendo na Alemanha naquele momento. Ela teve contato com exposições que continham obras de Van Gogh, Cézanne e outros artistas e até conheceu Marcel Duchamp depois, em uma viagem para os Estados Unidos, e traz para o Brasil essas experiências de vanguarda, com ideias mais radicais. No entanto, após a crítica de Monteiro Lobato massacrando a sua arte, a autora do quadro O Homem Amarelo (1915) fica abalada e afeta sua produção artística. Até a família dela pede para Anita pintar quadros mais clássicos, sem gerar polêmica. Até que, em 1919, ela vai estudar pintura acadêmica com Pedro Alexandrino, quando conhece Tarsila. Depois ela conhece Di Cavalcanti e Oswald e começam a planejar a Semana de Arte Moderna.

Bagolin conta que nesse período alguns artistas modernistas a convenceram de que o seu trabalho era pioneiro. “Por sorte ela tinha guardado as pinturas, ela quase destruiu tudo”, ressalta o professor. Ítalo ainda conta que ela foi escolhida para representar o período “pré-Semana de 22”, pois já produzia o que era moderno antes do evento. “Anita é inovadora, e sua exposição em 1917 causou muito mais impacto que a própria semana em si”, afirma o monitor.

Em outra parte da mostra é possível conhecer os objetos, diários e fotos que foram resultados das viagens de Mário de Andrade. “Com essa angústia dele de conhecer mais o próprio país, ele vai para o Norte e o Nordeste e faz anotações. Essas viagens vão inspirar Mário de Andrade a escrever Macunaíma (1928), um grande tesouro para o Brasil”, expõe Ítalo. Na mostra observa-se as edições do livro e as anotações de Mário, a forma como o pensamento do escritor era ordenado e como construiu a obra. “Macunaíma, por exemplo, foi revisado pelo Mário até praticamente a data da morte dele, em 1944. Ele nunca ficou satisfeito”, revela Bagolin.

 

“Mário de Andrade era muito angustiado com o País, inclusive ele rompe com os modernistas pois não acreditava que o movimento modernista revelava o que de fato ele acreditava ser o Brasil”, acrescenta Ítalo. “Ele começou a se incomodar com a ideia de ‘trazer o que é moderno’ sendo que, para Mário de Andrade, o moderno já estava aqui. Logo ele rompe com o Modernismo, como observamos nas cartas.” O título da mostra, Era Uma Vez o Moderno, corresponde à ideia de Mário, um desejo que ficou para trás, um sonho, conforme os curadores.

O monitor explica que o Modernismo ficou tão famoso que começou a ganhar uma vitrine mundial e fez com que o próprio governo da época quisesse de alguma forma se apropriar para defender as suas ideias populistas, criar esse imaginário de Brasil, de democracia racial e de nacionalismo. Essa busca por uma identidade nacional pelo Modernismo foi uma narrativa que começou a ser deturpada durante o Estado Novo, de acordo com a análise dos curadores. Eles contam que várias iniciativas acendem o interesse do governo Vargas. “A partir daí podemos considerar que o Modernismo morreu. Mário sentiu isso, alertou outros artistas e se posicionou contra. Ele não aceitou ser pago pelo governo, diferente de muitos colegas da sua geração. A partir do momento em que o Modernismo é cooptado como uma estética pelo Estado, esse caráter experimental morre”, destaca Bagolin.

 

Na mostra há uma carta de Mário para Manuel Bandeira dizendo que queria fazer poemas políticos, mas que não tinha forças para isso. “Escolhemos esse final melancólico, o Modernismo vencido pelas forças de ultradireita. Para Mário, os modernistas de 22 não deviam ser exemplos, e sim servir de lição. O principal legado modernista é esse questionamento que Mário de Andrade fez: é possível ser moderno, num país com tanta desigualdade, injustiça, discriminação e com falta de acesso a direitos básicos? Queremos encerrar a exposição com essa pergunta que eles nos fizeram há 100 anos”, comentam os curadores.

“No nosso país está havendo um apagamento cultural, como os incêndios no Museu Nacional e na Cinemateca. O IEB traz um pouco dessa resistência cultural com a exposição. A exposição se encerra com as cartas melancólicas de Mário de Andrade. Ele não acreditava que esse modernismo que o Oswald defendia fosse revolucionário a ponto de trazer mudanças sociais. É um conto de fadas que não condizia com a realidade. E termina com a volta do clássico, pintura de natureza morta”, conta o monitor Ítalo.

 

O curador Fabrício Reiner conta que a exposição contém um acervo riquíssimo e que precisa ser de conhecimento de todos. “É importante mostrar a riqueza e o patrimônio brasileiro. Essa semente da Semana de 22 é mais reflexiva que celebrativa. Em um país em que a cultura é desprezada, precisamos preservar e divulgar nossa arte a todos.”

Era Uma vez o Moderno está no Centro Cultural Fiesp (Av. Paulista, 1313) de quarta a sexta, das 12h às 20h, e sábado e domingo, das 11h às 20h. A mostra segue disponível de forma gratuita até 29 de maio de 2022. Quem preferir programar a visita deve acessar o site www.sesisp.org.br/eventos

 

Texto: Juliana Alves / Jornal da USP